Comunidade fundada por Eva Maria de Jesus se torna o primeiro quilombo reconhecido no novo Livro do Tombo dedicado a esses territórios no Brasil
O Quilombo Tia Eva, em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), foi oficialmente reconhecido como patrimônio cultural brasileiro. O tombamento ocorre com base na Portaria nº 135/2023, que criou um Livro do Tombo específico para registrar e proteger territórios quilombolas no país.
O reconhecimento marca um momento importante para a preservação das memórias ligadas à formação de comunidades negras no Brasil. O processo envolveu estudos técnicos e diálogo com moradores do quilombo, que participaram diretamente da construção desse reconhecimento institucional.
Esse é o primeiro território quilombola a integrar o novo registro voltado especificamente para esses espaços de memória, abrindo caminho para que outras comunidades também sejam reconhecidas.
A Constituição Federal de 1988 já prevê a proteção de sítios e documentos que guardam vestígios históricos de antigos quilombos. A regulamentação recente permitiu tornar esse reconhecimento mais concreto, criando instrumentos específicos para a preservação desses territórios.
O tombamento do Quilombo Tia Eva representa, portanto, mais do que uma formalidade administrativa. Ele reconhece o valor histórico, cultural e social das comunidades quilombolas, reforçando a importância de proteger espaços onde tradições, memórias e formas de organização comunitária afro-brasileiras permanecem vivas.
Além da preservação física do território, o processo também reafirma o protagonismo das próprias comunidades na gestão e valorização de sua história.
A história da comunidade está diretamente ligada à trajetória de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva.
Nascida escravizada no interior de Goiás, ela conquistou a liberdade por volta dos 50 anos de idade. No final do século XIX, migrou para o sul de Mato Grosso com familiares e outros libertos em busca de terras onde pudessem construir novas possibilidades de vida.
Em 1905, o grupo se estabeleceu em uma área de mata próxima ao córrego Segredo, região que mais tarde se tornaria parte da cidade de Campo Grande. Com recursos próprios, Tia Eva adquiriu as terras onde surgiria a comunidade quilombola urbana.
Além de líder comunitária, Tia Eva era curandeira, parteira, lavadeira e benzedeira, sendo uma referência de cuidado e solidariedade para quem vivia na região.
A presença de Tia Eva deixou marcas profundas na história local. Devota de São Benedito, ela construiu uma igreja dedicada ao santo como pagamento de uma promessa. Até hoje, seus descendentes realizam anualmente uma celebração em homenagem ao padroeiro da comunidade.
A trajetória da matriarca também desafia versões tradicionais sobre a fundação de Campo Grande, que por muito tempo invisibilizaram a presença e o protagonismo de comunidades negras na formação da cidade.
Hoje, o Quilombo Tia Eva segue ativo e mantém viva a memória de seus ancestrais, preservando práticas culturais, vínculos comunitários e tradições transmitidas ao longo de gerações.
Fontes:
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11/03/2026